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O lápis que vê

O lápis que vê

01 de Julho, 2018

O trabalho...

Ana Isabel Sampaio

Muita gente quer mudança, mas pouca gente está disposta a fazer as mudanças.

Não há atalhos para “o trabalho”. E o que é o trabalho? É o processo de cura e desbloqueio de tudo aquilo que nos limita. Há vários caminhos e cada um tem de encontrar o seu, pegando em diversas fontes, experimentando e falhando, mas seguindo com persistência. As coisas pioram antes de melhorar, mas vai-se chegando a patamares, vamos passando de nível.

Não podemos querer uma coisa e o seu oposto. As mudanças partem de dentro para fora. Não se pode ficar à espera de que venha alguém ou alguma coisa, algum acontecimento fantástico que, milagrosamente, nos vai salvar. Isso não existe. Primeiro mudamo-nos e depois, aquilo que chamamos de milagres, são os reflexos do nosso trabalho interior.

Temos de fazer espaço na nossa vida para aquilo que queremos. Não podemos querer uma coisa e fazer o seu oposto. Não podemos dizer que queremos uma relação harmoniosa e depois continuar a sair para o engate, não podemos dizer que queremos mais energia e saúde, e depois ter uma alimentação pouco saudável ou não dormir o suficiente, ou ter uma vida sedentária. Não podemos apelar a um Deus, Universo ou a nós mesmos, que queremos uma coisa, mas não dar os passos ao nosso alcance (ou seja, fazer a nossa parte) para que Deus, o Universo ou a vida façam depois a parte deles. Temos de criar espaço energético em nós e na nossa vida para aquilo que queremos. É como aquela piada do devoto que só queria ganhar o euro milhões, mas nunca jogou e depois ficou chateado com Deus…

Não há atalhos possíveis, porque as leis universais funcionam sempre e a toda a hora, são imutáveis e perfeitas… Funcionam mesmo quando ninguém está ver… Tal como os nossos valores devem estar sempre presentes, mesmo quando estamos sozinhos. Ou eles regem a nossa vida, ou se regem só quando há mais pessoas, há alguma falha neles. Os nossos valores não podem ser “dobráveis” (sim, acho que inventei uma expressão) segundo os nossos interesses (ou podem, dependendo de quais são).

Também temos de ter atenção, porque, a uma altura do caminho, podemos ficar presos em loops de cura intermináveis, ou seja, achar que tudo o que nos acontece de mal é mais um padrão para curar, ou achar que ainda não somos bons o suficiente. Ou podemos ficar presos no ego espiritual, que é quando achamos que já chegamos ao nosso destino, no entanto, continuamos a julgar e continuamos apegados a uma ilusão de alguma coisa, no futuro, que vai acontecer e mudar o mundo e acomodamo-nos.

Há uma cena no filme The Big Fish do Tim Burton em que o personagem principal sai da sua cidade natal e vai, com um amigo, para a cidade grande. A dada altura o caminho separa-se em dois (que vão dar ao mesmo sitio) e ele escolhe ir pelo com o ar mais tenebroso. Depois de passar por muitas peripécias, encontra uma aldeia que é simplesmente perfeita. E vai ficando por lá. Inicialmente só para descansar. Mas vai ficando e ficando. Conhece raparigas bonitas e começa a ponderar ficar de vez. Inclusive, reencontra um poeta muito famoso da sua terra natal, que ficou também nesse lugar perfeito e que está, há anos, para terminar a sua obra prima (que são duas linhas de um poema da treta). Até a potencialidade de romance existe, com uma serie de raparigas bonitas, ele quase se esquece da mulher por quem está apaixonada (e, spoiler alert, é o amor da sua vida, sou uma romântica, não me contive :)))… Nisto ele vai ficando confortável… não é bem o que ele queria, mas é bom… Ele começa a acomodar-se. E é neste estágio do trabalho que se correm grandes riscos. Quando já estamos cansados e parece que a luz ao fundo do túnel (aquela mesmo verdadeira) não se vê, mas chegamos a um sítio que é relativamente bom. Spoiler alert outra vez, o personagem diz: Eu até poderia ficar aqui e ser relativamente feliz o resto da minha vida, mas não és isto que eu quero. Ele escolhe não se contentar e, lá segue o seu caminho de novo, por locais tenebrosos. Claro que isto é só uma metáfora e é a minha interpretação dela.  Mas é preciso ter mesmo muita perseverança, ter coragem, olhar para coisas que, muitas vezes não queremos, autodisciplina… tudo tende a ficar um caos, porque quando sacudimos o tapete (o tapete somos nós) a nuvem inicial de poeira vai ser muito grande, e depois temos de dar umas sacudidelas mais… e mais umas nuvens... e depois temos de ir buscar forças onde nem sabíamos que tinjamos... e temos de ir seguindo caminho só com fé acreditando sem ter provas físicas...

Mas vale mesmo a pena. E ninguém, absolutamente ninguém pode fazer isto por nós. Ninguém pode vir salvar-nos. Temos de ser nós a salvar-nos a nós mesmos. A fazer essa escolha a cada dia, mesmo naqueles em que não apetece nada. As pessoas podem estar lá, apoiar, ajudar, mas não podem escolher e fazer por nós.

Espero que faça algum sentido, este texto...