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O lápis que vê

O lápis que vê

04 de Março, 2015

Letras do Oriente

Ana Isabel Sampaio
Naquele dia o calor abafava até os pulmões mais fortes. O ar estava denso e havia um tom amarelado no ar que dificultava a visão. Não era um bom dia para os sentidos.
Caminhou sem grande pressa até à praça central. O burburinho era tal que se tornava irritante. Ainda tinha tempo. Coçava-se de tanto nervoso miúdo. Duas e trinta e quatro, que horas seriam em Portugal? Não lhe apetecia fazer contas, tinha o cérebro melado.
Levava o envelope na mão. Já não estava muito direito, mas iria ainda passar por uma valente quantidade de mãos até chegar ao destino. Se tiver a sorte de chegar. Ficava com angústia só de pensar que poderia perder-se, extraviar-se, desencaminhar-se. Era muito importante que chegasse. Era mesmo muito importante. A sua chegada significava a diferença entre a esperança e o desespero, entre a vida e a morte, entre acreditar só mais um pouco ou desistir.
Ainda não era altura. A carrinha não tinha chegado. Será que aquelas palavras iriam adiantar alguma coisa? Se calhar era pretensão.

 

Chegou. Entregou a carta discretamente. Virou costas e seguiu. Tinha a certeza agora que valia a pena. Era um segredo e não há nada mais excitante no mundo do que um segredo partilhado silenciosamente entre um exíguo número de pessoas.