Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O lápis que vê

O lápis que vê

16 de Março, 2020

Diário (em tempos de pandemia) | Diary (in pandemic times) #3

Ana Isabel Sampaio

Copy of Copy of Copy of Copy of Cópia de Cópia d

1º dia de quarentena: para prevenir o contágio: fique em casa, evito contacto humano e grandes aglomerações. Eu: andei a preparar-me a minha vida toda para isto.

2º dia de quarentena: sinto muito falta de pessoas e nem gosta assim tan delas no geral

3º dia de quarentena: (amanhã vai ser assim) muahhhh preciso de calor humano

Yap, afinal eu descobri que gosto de pessoas. Não que não gostasse de pessoas, gosto das minhas pessoas e da humanidade em geral, mas pessoas às vez irritavam-me, eu sei é confuso. Isto vai ser bonito ainda é só o terceiro dia e os parafusos já andam à solta. 

Sempre achei o sofrimento inútil. Não falo das dificuldades individuais que vamos passando no nosso caminho. Falo do sofrimento que enquanto coletivo infligimos não só uns aos outros, mas a outras espécies. Como se escolhe a ignorância e a letargia.... É isto que explica a minha dualidade com as pessoas.

 

A cabeça precisa de desanuviar e tenho de ver muitas coisas engraçadas para ir passando o tempo. As caminhadas na praia, as conversas, as coisas que nunca se tem muito tempo para fazer. Estou a adorar meditar sempre que me apetece.

A manhã começou confusa, não é nada fácil organizar trabalho remoto. Mas lá conseguimos. O facto de me ter organizado ajudou muito para restabelecer a calma.

Fico um bocado apreensiva com a ideia de ter de ir amanhã aos correios (tenho mesmo de enviar uma receita aos meus pais) e ao supermercado.

Sinto-te comovida por tudo de bom que tenho visto: bom-humor, correntes de solidariedade e as pessoas a perceberem o poder da união (mesmo que fisicamente separados). Estamos todos a perceber que há mesmo outra forma. Que os exageros a todos os níveis são mesmo isso, exageros. Que não precisamos de tantas coisas. Que o nosso corpo precisa de ser cuidado e a nossa alma também. Pela primeira vez temos tempo de sobra para refletir. Percebemos quem são as pessoas com quem queremos falar e estar. Percebemos que queremos ajudar, que nos queremos ligar. Prezamos mais que nunca a nossa liberdade. 

E falando de liberdade… imaginem todos aqueles que não a têm. Então porque fazemos dela um dado adquirido? Deviamos pensar nela todos os dias e agradecer.

Ate amanhã que está a começar a serie Cosmos...

 

1st day of quarantine: to prevent contagion: stay at home, avoid physical contact and large crowds. Me: I've been preparing for this my whole life.

2nd day of quarantine: I miss people a lot and I generally don't even like people

3rd day of  quarantine:muahhhh I need human contact

Yap, after all I discovered that I like people. Not that I didn't like people, I like my people and humanity in general, but people sometimes are annoying. I know it's confusing. This is promising, it is only the third day and the screws are already loose.

(we need humor right?)

I have always found suffering useless. I am not talking about the individual difficulties that we are going through on our path. I speak of the suffering that, as a collective we inflict not only on each other, but on other species. How sometimes people choose ignorance and lethargy .... This is what explains my duality with people.

The head needs to clear up and good humor helps also the walks on the beach, the conversations, the things you never have much time to do. I love to meditate whenever I feel like it....

This morning was confusing, it is not easy to organize remote work. But we did it. The fact that I got organized helped a lot restoring the peace of mind.

I am a little apprehensive about the idea of ​​having to go to the post office tomorrow (I really have to send a prescription to my parents) and to the supermarket and do an errand for my brother.

I am touched by all the good things I have seen: good humor, chains of solidarity and people realizing the power of unity (even if physically separated). We are all realizing that there is another way. That exaggeration at all levels is exactly that, exaggeration and some are just grotesc. That we don't need so many things. That our body needs to be taken care of and our soul needs too. For the first time, we have plenty of time to reflect. We realize who are the people we want to talk to and be with. We realize that we want to help, that we want to connect. We cherish our freedom more than ever.

And speaking of freedom ... imagine all those who don't have it. So why do we take it for granted? We should be aware of it every single day and be thankful.

See you tomorrow that Cosmos is starting.