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O lápis que vê

O lápis que vê

26 de Dezembro, 2019

A otimização pessoal ou o extenuante caminho para a exaustão

Ana Isabel Sampaio

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Não vou negar que também me deixei levar pelo boom de autoajuda, espiritualidade (no caso bacoca) e positivismo exagerado. A questão foi: quando se para? Quando deixa de ser saudável? Não é esta uma forma de nos fazermos nós próprios os inimigos e justificar sistemas corrompidos com fragilidades pessoais?

É bem diferente a procura continua de ser melhor, de evolução e construção pessoal desta compulsão por exterminar tudo o que é negativo e sombra. De esmiuçar até ao mais pequeno pensamento tudo o que está errado.

Lia hoje uma passagem de Byung-chul Han que me fez pensar ainda mais sobre este tema, que já me vem confundindo o pensamento desde que me retirei, por assim dizer, da “espiritualidade”. Cataloga-se demais. Rotula-se demais e depois fica-se prisioneiro de ciclos viciados disfarçados de busca. Não estou a dizer que esta não existe, muito pelo contrário, eu sou prova disso, ela existe e tem de existir. Mas há um momento em que as teorias têm de dar lugar a um caminho pessoal sem apegos a formulas.

Esta mercantilização das nossas paixões é exaustiva. Parece que tudo o que amamos tem de ser rentável.

Acho cansativa a constante procura de objetivos (de forma obsessiva), de superar limites, que muitas vezes nem limites são (a não ser da própria mente) e da vontade de ver progresso, então todas as pequenas conquistas, mesmo que parvas (desculpem, mas algumas parecem só necessidade de atenção em redes sociais). A partilha pública constante de frases bonitas que na verdade são só uma constatação do óbvio. Basta passar os olhos pela seção de autoajuda e espiritualidade para ver um desfile de constatação do óbvio.  A partilha viral de vídeos onde são exaltadas boas ações que são comportamentos básicos de ser um ser humano decente, digo isto, porque outro dia enquanto via um desses vídeos virais pensei: Meu Deus, será que estamos tão na lama que estas gentilezas do dia a dia têm de ser exacerbados a este ponto, como se fossem um ato heroico?

“A fórmula mágica da literatura de autoajuda… é a cura. Designa a otimização mental que deverá eliminar terapeuticamente qualquer fraqueza funcional, qualquer bloqueamento mental. A otimização pessoal permanente, que coincide por completo com a otimização do sistema, é destrutiva. Conduz a um colapso mental. A otimização pessoal revela-se como autoexploração total.” Byung-chul Han

Acho que evolução é importante. Acho que conhecimento é importante. Acho que terapias e ajuda é importante. Mas a linha entre isto e a obsessão que se está a criar está a ficar muito ténue.  

Cada vida é diferente. Cada um precisa de um formula própria. Os tempos são diferentes e em cada tempo o coração é diferente. Tive sempre a ideia que a gentiliza pode mudar o mundo, aos poucos, com doçura…

Retiro-me sempre de algo, quando sinto que perdeu a poesia, é a minha medida. Retirei-me deste movimento por isso mesmo. Deixou de ser poesia e passou a ser outra coisa fatigante que ainda nem consigo bem explicar.

 

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